V.A.- Mesomorph Enduros
Coletânea soa como lava escorrendo do inferno
Existe uma cena
perdida, não catalogada, barulhenta e adorada pelos fanzines e imprensa
undegroud nos EUA, que até agora tem conseguido escapar da fogueira dos
rótulos e, por consequência, da fome da mídia.
Um rótulo não faz uma
tendência, confirmam as 15 bandas reunidas na coletânea "Mesomorph
Enduros", todas com clara identidade de conjunto.
Jim Thirlwell,
produtor, compositor e lenda (um dos criadores do rock industrial) teve a
sensibilidade de escancarar as semelhanças entre as bandas, muitas já
veteranas na cena independente.
O gosto de Thirlwell, que comparece
com sua própria banda, Foetus Inc., é a cola aparente do disco. Desde os
primórdios do Foetus, nos anos 80, aos remixes do grupo Prong, no ano
passado, Thrilwell tem se dedicado a uma linha única no rock.
Rock talvez nem seja o caso. Há guitarras, pesadas, monstruosas. Mas não uma batida constante.
O
que há em comum entre Cop Shoot Cop, Melvis, Tad, Helios Creed, Jesus
Lizard, Unsane, Hammerhead e Pain Teens (para ficar nos grupos menos
obscuros) é a agonia.
As letras falam em destruição, flagelo, dor,
morte. A música a exceção de Cop Shoot Cop, atualmente em fase mais
comercial, contratado pela Interscope, divisão da Warner é lava
escorrendo pelas portas semi-abertas do inferno.
Barulho, sim. A
melodia é irrisória. Há escalas de metal nos grupos de Seattle (Melvins e
Tad), mas a lentidão com que as duas bandas tocam é depressiva.
A base da música é a repetição. Industrial, embora a maioria das bandas não use samplers.
Nos
anos 80, falava-se em "som de Chicago". A cidade era a base de Steve
Albini, mentor dos grupos Big Black e Rapeman. "Mesomorph Enduros" tem
mapa maior, mas não é acaso o fato de a principal banda de coletânea,
Jesus Lizard, ser a maior revelação de Chicago nos anos 90.
(Texto Marcel Plasse para Folha de São Paulo - Ilustrada, 30/05/1994.)
Divirtam-se!